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paragem, onde depois se acharão as ilhas de Tristão da Cunha, leuando as bolinas largas, sendo o dia claro e bom, lhe deo hum vento supito em contrario tio que leuauão por julauento, que lhe deo com as velas sobre os mastos e enxarceas por dauante, com que as vergas nom poderão vir abaixo, posto que prestesmente lhe largarão as driças; e foy o pé de vento tão forte, que logo sosobrou quatro naos, que virarão as quilhas pera cima, que forão Bertholomeu Dias, Symão de Pina, Vasco d'Ataide, Gaspar de Lemos. As outras naos que escaparão de nom sosobrarem, foy por se lhe romperem as velas; e o vento passou; e outras lhe quebrarão as vergas e quasi meas sosobradas, com muito desacordo, bradando Deos misericordia, c tão perdidas que nom puderão valer ás gentes que ficauão polo mar, e sobre as quilhas das naos, dando gritos á misericordia de Deos. E o vento crecco em tormenta desfeita com que anoiteceo e se dobrou seo mal, correndo as naos sem vela, e o mar tão alto que as comia, com que todas se apartarão humas das outras, com que correrão vinte dias com traquetes agarruchados cada noite, dizendo a salua, bradando por misericordia de Deps. E porque o vento se foy mudando, que lhe seruia, forão dando as velas quanto puderão sofrer. O Capitão mór perguntou ao piloto de Mclinde, que seria a causa de tão supito contraste de vento tão forte. Elle lhe disse que ali onde lhe dera aquelle vento contraste ao que leuauão, era porque hi perto deuião estar algumas ilhas a que dando o vento que leuauão tornaua de refrega tão forte e supito, que causaua tamanha tormenta porque erão longe de terra. E correndp assi se topou a Capitaina com Sancho de Toar sem mastareos das gaueas, que lhos leuara o vento com as velas, e nom concertarão outras porque nom podião leuar mais velas; e depois se ajuntou Bras Matoso. E porque achauão grandes frios, e os dias pequenos, disserão os pilotos que hião bem nauegados, como de feito dobrarão o Cabo sem o ver, e hindo cortando mais largo, se forão as naos apparelhando, *e* derão todas as velas, com que forão hauer vista da terra antes do cabo das Correntes, que os pilotos de Melinde logo conhecerão, e forão correndo a costa, e topárão com as outras naos que se forão ajuntando até Moçambique, somente Diogo Dias que nom sabendo per onde hia, nom se chegou a terra tanto como deuera, e foy ter por fóra da ilha de sam Lourenço, e porque a virão em seu dia lhe pozerão o nome; e chegandose a ella crendo que era a costa de Moçambique, correrão de longo com boa vigia, busTojio i. 20

cando Moçambique, até que forão dar no cabo da ilha, que foy fazendo volta até lhe dar o vento pola outra banda, que lhe ficou em contrario, polo' que então conhecerão que era ilha e vinhão errados. Então se tornárão á ilha e sorgirão em hum bom porto, que fazia enseada abrigada dos ventos do mar, e deitárão o batel fora, e forão a terra onde achárão huma fonte d'agoa muyto boa: nom hauia gente, e hauia muyto bom pescado. Então mandou hum degradado que trazia, porque em todalas naos EIRey mandaua degradados pera assi auenturarem em terras duvidosas, e mandaua EIRey que fossem perdoados á ventura da morte ou vida. O qual foy pola terra dentro, e achou humas aldeas de casas de palha, e a gente preta e nua, com que falou per acenos, sem lhe fazerem nenhum mal, e se tornou á nao, e com elle se vierão alguns daquella gente que venderão galinhas e inhames, e fruitas do mato boas de comer, e esto a troco de facas e machados, e cousas de ferro, e continhas pintadas e cascaueis, e espelhinhos : onde os nossos estiuerão muyto bem huns dias, mas porque a gente começou adoecer de febres e morrião, polo que então se partirão e forão pola bolina quanto puderão por tomar a costa de Moçambique, e tomárão a costa alem de Melinde, e correrão a costa buscando Moçambique polos sinaes que trazia o piloto no regimento, e correrão tanto que passárão por Çacotorá, e forão ter no cabo de Guardafú, que nom sabião onde estauão, e forão correndo ao longo delle polo estreito dentro até chegar á cidade de Barbora, que he de fora das portas do estreito pera a parte da terra do Preste, a cidade fermosa de casas brancas e muytas janellas, e bom porto em quo estauão as naos e zambucos, e sorgirão fóra das naos, mas espantados de ' *ver* tão nobre cidade de casaria, e os da terra assi ficárão espantados vendo tal nao que nunqua virão. Mas estauão hi Mouros tratantes que estiuerão em Calecut quando lá fora Dom Vasco da Gama, e tinhão muyto contado das cousas que em Calecut se passárão, e Iogõ disserão que estas naos erão como as outras. Polo que logo EIRey da cidade cobiçou de tomar a nao, polo que nella esperaua tomar, e armou manha que logo mandou hum barco a perguntar que gente era, ou o que alli buscauão em seu porto'. Ao que lhe o Capitão respondeo que elle hia pera Calecut em companhia d'outras naos que hiâo carregar de mer

1 «verem* Aj.

cadorias, e com o tempo se perderão da companhia, e errando o caminho vierão alli ter, e logo se hauião de partir. Ao qual recado o Rey mandou reposta, que muyto folgaua virem a seu porto, e que todo o que houvessem mister lhe daria por seu dinheiro, c tambem lhe daria as mercadorias que hia carregar a Calecut, que tinha muytas de quantas sortes quizesse, que lhe daria a troco das mercadorias com que em Calecut houvera de comprar, e polos seus preços, e lhe carregaria a nao quanto quizesse; e com este recado lhe mandou presente de galinhas e carneiros, e arroz e manteiga, com que o Capitão muyto folgou porque tinha muytos doentes. Polo que lhe mandou muytos agradecimentos do presente, dizendo ao mais, que elle se hauia por ditoso em vir ter a seu porto, onde elle como nobre Rey e Senhor, nom o conhecendo, lhe fazia tanta honra; e quanto a lhe vender carga pcra sua nao, elle era muyto contente se lhe desse pimenta, canella, crauo, noz, maça, que erão as cousas que hauião mister pera sua carga; e lhe mandou dizer as mercadorias que lhe daria em troco, e mandoulhe de presente dez couados de veludo cremesim e seis barretes vermelhos, e com isto mandou o escriuão da nao, com apontamentos dos pesos e preços das compras e vendas, que os visse EIRey, *e* se delles fosse contente, logo os assentasse com elle. O que visto todo polo Rey, ficou muy ledo em seu coração, vendo que se lhe encaminhaua bem pera a traiyção que queria fazer, sabendo a pouca gente que hauia na nao, que disso deu auiso aos seus, os quaes virão pouca gente na nao, e quasi todos amarellos, doentes, que nom poderião pelejar. E fez muyta honra e gasalhado ao escriuão e dous homens que forâo com elle, e assentou e assinou os preços assi como hião, e lhe mandou amostrar casas em que linha muyta pimenta e drogas quantas podia, e deu ao escriuão c aos outros panos de seda, e outras cousas, e mandou dizer ao Capitão que tinha pouco tempo pera alli estar, que logo hauia de vir o tempo pera passar á índia se pera Calecot queria hir, e lhe daria piloto que elle pagaria; que por tanto logo deuia tomar carga mandando no batel as mercadorias com que pagasse a fazenda; que logo tornasse á nao, e que folgaria de lhe dar todo o auiamento; que na praya á borda d'agoa pesarião a fazenda- e metterião no batel; e porque lhe disserão que trazia gente doente, folgaria que a mandasse a terra em quanto carregasse pcra se curarem. Com a qual reposta o Capitão e toda a gente houve muyto prazer, mórmente os doentes que muyto desejauão hir a terra, que muyto rogárão ao capitão que os mandasse.

Em quanto estes recados corrião, o Rey com os seus ordenárão barcos com gente armada que fossem tomar a nao, e duas naos grandes com muytos Mouros que hauiâo d'abalroar. O que todo bem concertado, mandou o Rey na praya armar balança e trazer muytos sacos de pimenta e fardos de canella, e mandou hum barco á nao dizer ao Capitão que fosse o escriuão a terra pera em tanto pesar a fazenda, e estar apartada 1 * pera * logo embarcar; e se toda nom podesse caber no batel lhe daria barcos que a carregassem. Ao que logo o escriuão mandou a terra e com elle seis homens pera olhar e ajudar; onde chegado, EIRey mandou á praya hum seu feitor que fosse fazer o peso, que logo presente o escriuão começou a pesar pimenta em sacos, e por apartada. O batel fez detença em tirarem as mercadorias debaixo, e a embarcar e metter os doentes com suas roupas cujas pera lauarem, em modo que o batel leuou muyta fazenda, e com os doentes, que passauão de cinquoenta, e com dez marinheiros valentes homens que hauião de hir e vir no batel, dizendo o Rey ao escriuão que lhe hauia de dar toda boa carga porque folgassem de tornar alli a carregar outras naos. A nao estaua tão perto, que bem vião estar os fardos na praya: o escriuão mandou hum homem em huma almadia dizer que fosse o batel, que se apartaua *da* nao, em elle chegando, o qual querendo entrar no batel cayo ao mar, e se tornou á nao a vestir outro fato, e nom quiz tornar n'almadia. O Capitão lhe mandou que fosse n'almadia, elle respondeo: «Senhor tomo» « por mao sinal cahir n'agoa; hirei quando o batel tornar.»

Tanto que os Mouros dos barcos armados virão o batel em terra que a gente desembarcaua, a remo sairão da terra hindo pera a nao, e na terra começárão a catiuar e atar os doentes. Os sãos vendo a trayção começárão a se defender com espadas, que acertárão de leuar: e houve brados e virão derrubar huma bandeira, que hia na proa do batel, e alguns Portuguezes dos sãos que a nado se acolhião pera a nao, os barcos dos Mouros os forão matar. E as duas naos grandes, porque nom tinha» vento na bahia, sahião á toa pera fora, e o batel que logo os Mouros despejarão, se metterão muytos nelle que hião remando pera a nao, com arcos e zaguchos. O que sendo visto da nao, conhecerão a trayçâor

1 *e* Aj.

polo que nom houve espaço mais que cortarem amarra, e derão as ve-
las, o que fez o Capitão com o mestre e bombardeiros, que por todos
serião até vinte homens sãos, e outros tantos doentes que jazião, que se
nom bolião, por isso nom forão no batel. O que vendo os Mouros que
a nao hia desamarrada dando as velas, chegárão a força de remo, co-
brindo a nao de frechas com que inda ferirão alguns dos marinheiros
que dauão as velas, e vinhão por entrar a nao, ao que o Condestabre
doente se aleuantou, e deu fogo em berços e falcões que estauão carre-
gados, com que quiz Nosso Senhor que deu nos barcos com que metteo
tres no fundo, matando muytos Mouros. O que vendo os outros se afas-
tárão, e hião apos a nao a remo, que nom acertarão de trazer velas,
aguardando que as naos chegassem que já vinhão á vela. Os nossos co-
mo apparelhárão as velas, concertárão artelharia, que outra defensão nom
tinhão, e sendo as naos perto, hum tiro de falcão quis Deos que acer-
tou no masto, que logo cahio com a verga, e arrombou a nao, e en-
trou agoa com que se hia ao fundo. Ao. que acodirão os barcos a
saluar a gente, com que a nao se foy saindo; e a outra nao vendo este
desbarato nom quis hir auantc e se tornou. l *A qual trayção se os
Mouros acommetterão á tarde, quando a viração era do mar que a nao
nom se pudera fazer de vela, sem duvida fora tomada, porque nom ha-
uia quem a defendesse. * E feitos assi á vela com tamanho mal de tanta
gente morta, e fazenda e batel perdido, que era o mór mal, chorando
todos, pedindo a Deos misericordia, que os saluasse do risco da morte
em que ficauão, hauendo seus conselhos, e vendo que erão tão poucos
que se amainassem a vela a nom poderião tornar a hiçar, então fizerão
arratadura abaixo das vergas pera nunqua amainarem, nem lhe cairem
se as adriças quebrassem, e se metterão em caminho de sempre correrem
á popa, e quartel que lhe seruissem todas as velas, e fossem per onde a
Nosso Senhor lhe aprouesse os leuar: e quando lhe daua algum vento
rijo, largauão as escotas, que com muyto trabalho as tornauão a caçar
com o cabrestante, nauegando sempre ao som do vento, com o que en-
trou nos doentes tamanho desmayo, que começárão a morrer que ne-
nhum ficou, e assi nauegando sem nunqua verem terra, aprouve á pie-
dade de Nosso Senhor mostrar sua grande misericordia, que em tres me-

1 Omittido no Ms. da Aj.

s

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